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Publicado em 05 de Julho de 2011, às 17h43min

Internamento de viciados em crack gera polêmica

Especialistas afirmam que o recolhimento compulsório apenas tem tirado as crianças das ruas sem oferecer tratamento

Mariana Costa, do R7

O tratamento obrigatório de crianças e jovens viciados em crack em abrigos, projeto implementado pela Prefeitura do Rio há cerca de um mês, foi alvo de duras críticas feitas por representantes de 85 entidades de defesa dos direitos das crianças e dos conselhos regionais de Psicologia e Serviço Social durante uma reunião realizada ontem (4). Em maio, a Prefeitura do Rio criou o "Protocolo de Abordagem à Pessoa em Situação de Rua", que determina que todos os menores recolhidos nas ruas e que sejam dependentes químicos, principalmente de crack, sejam obrigados a se tratar.

Entretanto, assistentes sociais, psicólogos e integrantes de organizações não governamentais afirmam que o recolhimento compulsório apenas tem tirado as crianças das ruas sem oferecer tratamento médico e pscológico adequado e que o projeto, gerido pela Secretaria Municipal de Assistência Social, deveria ser realizado em parceria com profissionais especializados em saúde mental que a própria prefeitura dispõe em seus quadros, mas que não estão participando do programa.

Integrantes do setor de fiscalização dos dois conselhos, que visitaram o recém-inaugurado abrigo Casa Viva, projeto piloto criado pela prefeitura para receber os meninos e meninas retirados das ruas, afirmam que o local não tem estrutura física e profissionais adequados para tratar dependentes químicos e denunciam que a atual abordagem se assemelha aos antigos manicômios, modelo de tratamento psiquiátrico banido no país há mais de 20 anos.

Representante da Rede Rio Criança, que reúne 25 entidades de defesa dos direitos de crianças e adolescentes, Márcia Gatto afirma que a "a ampla equipe multidisciplinar anunciada pela Secretaria de Assistência Social não existe" e que não há um psiquiatra, mas apenas um clínico geral para tratar dos pacientes.

- Nos pareceu uma experiência nada acolhedora. Mais parece um encarceramento. Os garotos passam a maior parte do tempo vendo TV quando não estão dopados. Não existe estímulo ao vínculo familiar e as crianças não têm acompanhamento quando recebem alta.

Polêmica

As ações de recolhimento em operações nas chamadas cracolândias com uso da força também foram alvos de duras críticas porque, segundo o grupo, desrespeita as recomendações da Política Nacional de Saúde Mental e impossibilita uma abordagem social, como explica Hilda Correa de Oliveira, membro do Conselho Regional de Serviço Social.

- O grande equívoco é a falta de articulação com a área de saúde mental. O ato de abordagem nunca pode ser acompanhado de força policial porque é preciso criar uma relação de confiança e diálogo com os dependentes. O atual modelo de abordagem não pode ser caracterizado como social, mas de força.


“Tráfico só acaba com fim de consumidores"

Internação obrigatória não tira direitos de viciados...Polêmica, a medida tem dividido especialistas. Juristas e a própria OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil) afirmam que a medida fere a Constituição e desrespeita o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Especialistas em tratamento de dependência química ponderam que somente a internação forçada não resolve o problema, e que, se não houver um tratamento adequado, as crianças fatalmente vão voltar para as ruas.

Em seu blog, o desembargador Siro Darlan, conhecido por sua atuação no Juizado da Infância e Juventude do Rio na época da implementação do ECA, faz críticas contundentes à medida e afirma que "o município há 21 anos descumpre a lei de proteção integral à infância". Darlan acusa as autoridades municipais de desrespeito ao ECA e negligência ao deixar de cobrar sua efetiva aplicação.

"É claro que ninguém quer crianças usando drogas, mas o que está errado é deixá-las sem família, sem escolas, sem creches, sem respeito, perambulando pelas ruas sem destino por falta de equipamentos que as tratem com respeito e dignidade".

Um relatório elaborado pelo grupo será entregue para vereadores, deputados e prefeitura nos próximos dias, e uma carta assinada por diversas entidades será encaminhada ao Comitê Olímpico Internacional, que acompanha e fiscaliza as ações do município voltadas para a realização dos Jogos de 2016.

Secretaria diz que projeto já é modelo

Após ganhar notoriedade como o "xerife do Rio", por criar as operações de combate à desordem urbana quando esteve à frente da Secretaria de Ordem Pública, o atual titular da Assistência Social, Rodrigo Bethlem, acusou os críticos de "falarem sem conhecimento de causa". Ele afirma que o programa é feito de maneira compartilhada com a Secretaria Municipal de Saúde e que a Casa Viva tem psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional, enfermeiros, assistentes sociais, cozinheiro e assistente de cozinha, além de educadores.

- O maior problema é falarem sem conhecimento de causa. Não é internação. É um abrigo compulsório, obrigamos a ficar em um abrigo. É uma gestão compartilhada com a saúde. Aceito crítica, é valida, mas para falar tem de conhecer.

Bethlem disse que as crianças praticam atividades na casa e que frequentemente são levadas para passeios.

Ainda de acordo com Bethlem, as operações para recolhimento dos menores nas ruas têm de ser feitas com o acompanhamento da Polícia Civil – a DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente) – porque entre os adolescentes podem existir criminosos. Segundo ele, desde o início das operações, já foram encontradas mais de cem pessoas que tinham mandados de prisão expedidos.

Bethlem afirmou que as famílias acompanham o tratamento dos adolescentes e que nenhum dos internados já teve alta e que também haverá um acompanhamento para reinserção social e familiar daqueles que saírem da instituição.

Segundo ele, as secretarias Municipais da Saúde e de Assistência Social, além do Ministério Público do Rio, têm sido procuradas por governos de vários Estados do país para que o programa seja implantado em outros lugares
 

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  • Maria Arlete Barreira 15/09/2011 08h33

    No meu ver, de nada vale privar estas crianças da sua liberdade, pois eles só atentam contra a sua saúde e proventura praticam actos menos próprios para conseguir o artefacto que consomem, porque o sistema instituído não é de liberdade mas sim de proíbição fomentando o poder através do enriquecimento de corruptos de colarinho branco que manuseiam o tráfico. Pois o pior problema não é a droga é o tráfico, que obriga à proibição, levantando assim ondas de interesse pelo proíbido, ou será um problema de saúde pública ou mesmo social, a droga nos países onde ela abunda? Mas falando específicamente destes reclusos cuja notícia refere, estas crianças metem-se na droga porque a vida delas, já de si é uma droga, ou seja, não gostam da vida! Então o único caminho a seguir é criar condições a estas pessoas para que elas tenham gosto pela vida, e só com liberdade de escolha se pode educar eficazmente pois porque de qualquer outra forma é imposto alguma coisa que pode não ser aceite pelo indíviduo, logo pode produzir resultado a curto prazo mas a longo prazo não produz efeito! Proponho à comunidade Brasileira que denuncie esta situação à Federação Internacional de Direitos Humanos!

  • Andressa 20/07/2011 14h03

    Enquanto o país não investir mais em ações de prevenção, principalmente nas famílias, que é, na maioria dos casos de onde surgem essas questões de drogadição os municípios tentam de qualquer forma minimizar o problema, creio que esta é mais uma tentativa, vale a pena tentar...

  • Arsanjo Paul Colaço 20/07/2011 14h11

    A Comunidade Terapêutica Vida Nova é a unica CT do sul do país especializada em tratamento de dependentes químicos adolescentes (12 à 18 anos). Podemos receber demanda através de parcerias publica ou privada. Atenciosamente Arsanjo Paul Colaço Administrado www.abvn.org.br (47) 3370-7529 3370-7867

  • ANA REGINA 06/07/2011 13h30

    Parabéns pelo seu blog! Só um comentário, a lei que regulamenta a profissão do serviço social, é a lei de n.8742 de 070993, não a de 866293 como está postado sobre a profissão do serviço social.Se estiver enganada me corrija por favor! obrigada. Ana regina

  • ANA REGINA 05/07/2011 16h47

    Pelo menos tem alguém fazendo algo por essas crianças,com essa iniciativa cria-se opiniões, mesmo sendo contrárias.E com isso nascem outros interesses fazendo arranjos aqui ou ali movimenta quem tem ou numca teve desejo participar desse mal que cada vez mais desestrutura toda a sociedade.vale lembrar que as leis por si só não surtem efeitos.

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